É com alegria que inicio minha primeira coluna como parte do time de colunistas da Revista Viver Vitória. Este espaço nasce para traduzir meu olhar sobre fotografia, arte, design e tudo que compõe o meu lifestyle, da música ao automobilismo, da moda aos lugares que me atravessam esteticamente. E para abrir essa trajetória, escolhi falar sobre a Bahia. Mais precisamente, sobre Trancoso. Um lugar que sempre me provoca como artista e fotógrafo. Que me convida a observar com atenção e traduzir, através das imagens e das sensações, aquilo que permanece.
Eu voltei a Trancoso recentemente com o mesmo impulso de sempre: descansar, curtir a família e caminhar devagar observando as fachadas. Não fui atrás da praia, juro! Fui atrás das casas”.
Há lugares que são paisagem mas, para mim, Trancoso é construção.
No coração do destino está o Quadrado. Um vazio central que organiza tudo. Um campo aberto onde o horizonte termina na Igrejinha de São João Batista. Aquele branco absoluto com portas e janelas verde escuro contrastando ao azul do céu. Simples, definitiva. O que me interessa ali não é o cartão-postal. É a permanência.
As casas do Quadrado são térreas, volumetria baixa construídas diretamente no chão de terra batida. Não existe disputa por altura e nem grito arquitetônico. Só a presença delas mesmo e as cores! Amo as cores desse lugar. Amarelos queimados, verdes fechados, azuis densos, outras cores vibrantes, rosas que parecem absorver o “golden hour”. Em Trancoso, a cor não é tendência, é identidade. Não está ali para agradar turista. Está ali porque sempre esteve e é justamente isso que me encanta nesse pedacinho de Brasil. Me questiono, será que existe alguém que normatiza as cores do Quadrado e fiscaliza quando está na hora de repintar?! Será que alguém pode trocar a cor da fachada porque simplesmente “enjoou” da cor que estava?! Toda vez que volto pra lá, parece que nada mudou, nem o tempo foi capaz de danificar todo o charme desse lugar.




É curioso como um dos destinos mais desejados do Brasil consegue manter uma escala tão humana. No verão e no ano novo, o mundo inteiro parece caber ali. Mesmo assim, o Quadrado continua sendo sala coletiva. Crianças correm, jogam bola e andam de bicicleta. Pessoas sentam na grama. A igreja observa em silêncio.
O luxo chegou! Hotéis sofisticados, restaurantes disputados, festas que atravessam a madrugada mas no centro histórico, as fachadas continuam baixas, as portas continuam simples e as janelas continuam enquadrando sombra e cor. É justamente aí que o meu “olhar-artista” aguça. Enquanto fotografei, me aproximei dos detalhes e extraí as geometrias que o meu olhar alcançou. Madeira marcada pelo tempo, texturas da parede irregular, camadas de tinta que revelam manutenção constante. Nada é sofisticado demais, nada é descuidado demais. Existe equilíbrio. Talvez por isso Trancoso seja especial para a Bahia. Ele preserva uma ideia de Brasil que não se apoia em monumentalidade e, sim, numa escala, no chão denso do alto de uma falésia.
Trancoso não é apenas destino de verão. É memória construída, cor sustentando o tempo e acredito que esse seja o principal motivo para que tanta gente volte. Não só pela praia (ou pelos holofotes) mas pela sensação de que, ali, o Brasil ainda respira na altura dos olhos.

Kiolo
Fotógrafo, artista visual e designer
Kiolo é fotógrafo, artista visual e designer, com atuação marcada pela construção de narrativas visuais que transitam entre arte, moda, música, carros e comportamento. Seu trabalho se destaca pelo olhar contemporâneo e autoral, que transforma referências do cotidiano em imagens e reflexões sobre estética, identidade e movimento. Com uma trajetória que inclui exposições, projetos autorais e colaborações com marcas e iniciativas culturais, Kiolo amplia os limites da fotografia ao dialogar com diferentes linguagens e universos criativos. Agora, passa a integrar o time da Revista Viver Vitória como colunista, somando à publicação sua visão sensível e plural sobre fotografia, cultura e lifestyle contemporâneo.

















