Artigo por Jacy Ramos
Salvador, primeira capital do Brasil, é uma cidade historicamente reconhecida por sua potência cultural, força ancestral e profundo sincretismo religioso, destacando-se como território de encontros entre matrizes indígenas, europeias e africanas.
Foi nesse contexto que, no ano de 1745, chegou a Salvador a imagem de Nosso Senhor do Bonfim, trazida de Setúbal pelo português Teodósio Rodrigues de Faria, Capitão de Mar e Guerra, em cumprimento a uma promessa feita após sobreviver a uma tempestade em alto-mar.
Natural da cidade de Setúbal, Teodósio era devoto de Cristo e frequentava a igreja local onde havia uma imagem do Senhor do Bonfim. Foi diante dessa referência de fé que, em meio ao desespero provocado pela violenta tempestade no mar, fez sua promessa: caso sobrevivesse, traria para Salvador uma imagem semelhante àquela que venerava em sua terra natal.
A vinda da imagem ao Brasil estabeleceu uma relação histórica entre as duas nações. A travessia atlântica transportou, para além da imagem sagrada, um vasto repertório de memórias, pertencimento e identidade.
Assim, a devoção ao Senhor do Bonfim consolidou-se como uma das mais significativas expressões de fé do povo baiano, fortalecida ao longo de mais de dois séculos de tradição. Inicialmente, a lavagem ocorria no interior da igreja, quando fiéis realizavam a limpeza do templo com água e vassouras, como gesto de preparação espiritual para a festa. Com o passar do tempo, esse ritual ganhou dimensão popular, transformando-se em uma das maiores manifestações de fé, sincretismo religioso e resistência.
Pela primeira vez, a cidade de Setúbal pode realizar sua própria Lavagem do Bonfim, representando um momento de reconexão histórica e fortalecimento dos laços entre Brasil e Portugal, reafirmando pontes construídas ao longo de mais de dois séculos de fé e travessia. A cerimônia deve acontecer na mesma igreja frequentada por Teodósio Rodrigues de Faria, resgatando simbolicamente o espaço onde nasceu sua devoção e onde teve origem a promessa que atravessou o Atlântico.

Jacy Ramos
Jacy Ramos é professora, artista plástica, produtora e curadora de arte. Formada em Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas pela UCSAL, pós-graduada em História e Cultura Afro-Brasileira pela Fundação Visconde de Cairu e graduada em Pedagogia pela Universidade da Cidade do Salvador, construiu uma trajetória profundamente vinculada à memória histórica e às tradições afro-brasileiras. É também associada do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), onde passou a integrar o quadro de membros a partir de sua posse em dezembro de 2025.
Em sua trajetória docente, desenvolveu projetos voltados à história e cultura afro-brasileira, fortalecendo a identidade étnica de estudantes. Atuou também em comunidades quilombolas na região de Maragogipe, promovendo ações de valorização e fortalecimento institucional. Atualmente, trabalha como produtora e curadora de exposições no Brasil e no exterior, integrando arte, educação e preservação histórica na difusão das expressões afro-brasileiras.
Foto: Leandro Paranhos




