Com 76 obras de designers de diversos continentes, mostra itinerante apresenta peças feitas a partir de resíduos e discute os caminhos da criação sustentável
O Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM Bahia) abriu as portas, nesta quarta-feira (15), para a abertura da exposição Pure Gold – Upcycled! Upgraded! (Ouro Puro – Reciclado! Aprimorado!). A mostra itinerante internacional traz a Salvador 76 obras assinadas por 53 designers de várias partes do mundo, com foco em uma proposta bem definida: criar objetos e móveis de alto valor estético a partir de materiais descartados, sobras de processos industriais e matérias-primas de baixo custo comercial.
Promovido pelo ifa – Institut für Auslandsbeziehungen em cooperação com o Goethe-Institut Salvador e o MAM, o projeto também funciona como um espaço de discussão sobre hábitos de consumo e novos caminhos para a produção industrial e artesanal.
Do “lixo” ao design de alto padrão: a visão de Volker Albus
O arquiteto e professor emérito da Universidade de Artes e Design de Karlsruhe, Volker Albus, é a mente por trás da concepção da exposição. À equipe da Viver Vitória, ele explicou que reutilizar o que é descartado não é uma novidade, mas o mercado contemporâneo passou a exigir uma entrega visual muito mais sofisticada desses processos.
Nesse cenário, Albus defende que o conceito de upcycling — que envolve a melhoria e a valorização do material original — é bem diferente da reciclagem comum:
“O movimento de reutilização é muito antigo. É a história da humanidade, porque as pessoas sempre usaram as coisas que achavam para usar de forma diferente. Mas o ‘upcycling’ é um novo desenvolvimento. É a reciclagem voltada para alcançar um novo nível de consumo e um novo nível estético. E você não pode fazer isso, por exemplo, com carros, porque ali tudo tem que ser novo. Mas com coisas da nossa vida diária, sim, especialmente luminárias, assentos e carpetes.”
O curador defende que a qualidade do produto final depende inteiramente do rigor técnico do designer: “Quando você vai ao shopping, você quer comprar produtos que pareçam bonitos, que tenham uma certa qualidade, que deem uma atmosfera legal para a sua casa. Não basta apenas resolver um problema de forma barata. Para trabalhar com isso, o designer precisa ser preciso e ter um olho muito atento. São decisões pequenas: os encaixes estão limpos? No mesmo tamanho? Prontos? Todas essas decisões juntas criam um objeto perfeito a partir de partes quebradas. O resultado é tão bom que você até se esquece da origem daquelas peças.”

A força da criatividade local e a curadoria de Adélia Borges
A edição latino-americana da exposição ganhou contornos regionais sob o olhar da historiadora e curadora brasileira Adélia Borges. Ela destaca que, diferentemente da Europa, onde a consciência ambiental sobre resíduos é um debate recente, o reaproveitamento é um traço forte e antigo no dia a dia da América Latina.
Ao trazer a mostra para Salvador, a curadora fez questão de abrir espaço para a produção do estado, valorizando o talento de criadores locais. “Foi muito bom fazer a curadoria para a América Latina dessa exposição, porque mostra que nessa região do mundo o ato de reciclar o lixo já faz parte da nossa cultura há muito tempo. E ao chegar a Salvador, a gente abriu uma seção para objetos feitos aqui, localmente”, inicia Adélia.
“A gente vê, por exemplo, a transformação do papelão com formas que são frutos de uma imaginação muito fértil do Ronaldo Bispo, que é baiano de Feira de Santana. Também temos brinquedos populares feitos de pneus usados e latas de refrigerante por Vivaldo e Antônio Carlos, além de peças históricas da Lina Bo Bardi de 1963.”
Para a curadora, a exposição serve como um convite prático para repensar escolhas cotidianas:
“Isso mostra que essa prática já existe aqui há muito tempo. Nos países mais ricos, na Europa, essa consciência surgiu recentemente e foca na nossa preocupação com a matéria-prima dos objetos que consumimos no cotidiano. É importante escolhermos bem para não gerar mais lixo para um planeta que já está totalmente superlotado.”

Intercâmbio Cultural
A chegada da exposição a Salvador marca também a atuação cultural do Goethe-Institut na Bahia. De acordo com Leonel Henckes, diretor de operações da instituição no estado, a mostra é fruto de uma rede de cooperação alemã voltada para o intercâmbio artístico:
“O Goethe-Institut é vinculado ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha e é a principal e maior instituição cultural do país, presente em 100 nações. Em Salvador, atuamos há 64 anos com projetos para a cidade e o programa de residência artística Vila Sul. A exposição ‘Pure Gold’ é produzida pelo IFA e nós solicitamos a vinda dela para cá. Através da parceria com o MAM, viabilizamos a produção local e o aporte financeiro necessário para que ela acontecesse em Salvador.”
Além do acervo, a exposição promove uma oficina prática de upcycling entre os dias 21 e 24 de julho. A atividade vai reunir 40 participantes locais para criar novas peças sob metodologias integradas a uma plataforma digital global do projeto.
SERVIÇO
Exposição: Pure Gold – Upcycled! Upgraded! (Ouro Puro – Reciclado! Aprimorado!)
Visitação: 16 de julho a 30 de agosto | Horário: Terça a domingo, das 10h às 18h
Onde: Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM Bahia) – Solar do Unhão, Salvador (BA)
Quanto: entrada gratuita
Realização: ifa – Institut für Auslandsbeziehungen e Goethe-Institut
Fotos: @solcialize.co




