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Em Salvador, Augusto Cury alerta para riscos da hiperconexão e defende gestão da emoção

Psiquiatra, escritor, palestrante e pré-candidato à presidência, Augusto Cury participou de evento no The Latvian, em Salvador

A busca por conexão digital em um mundo cada vez mais acelerado tem cobrado um preço alto da saúde emocional coletiva. O alerta foi feito pelo psiquiatra, escritor e palestrante Augusto Cury, nesta quinta-feira (11), durante passagem por Salvador. O especialista veio à capital baiana especialmente para ministrar a palestra “O Futuro da Saúde e da Humanidade: Emoções, mente e relações em um mundo acelerado”.

O evento foi realizado no The Latvian, business lounge situado na Bahia Marina, e reuniu um público voltado para o debate sobre liderança e comportamento. Antes de subir ao palco, Cury detalhou o cenário de crise mental global, analisou o impacto das redes sociais e defendeu a necessidade urgente de resgatar a leveza nas relações humanas.

Hiperconexão e isolamento gigital

De acordo com o psiquiatra, o avanço tecnológico e a dependência das redes sociais criaram um paradoxo comportamental. Embora os indivíduos estejam inseridos em redes globais, o distanciamento afetivo real aumentou consideravelmente, afetando inclusive figuras de grande visibilidade digital.

“De fato, a hiperconexão gerou um problema gravíssimo mundial. Estamos próximos e infinitamente distantes das pessoas. Nos conectamos com quem está longe, mas não nos conectamos com as pessoas reais e concretas, e pior ainda, não nos conectamos conosco”, afirmou Cury.

O escritor relatou que recebe frequentemente ligações de influenciadores digitais com milhões de seguidores que se queixam de depressão e vazio existencial. Segundo o diagnóstico do especialista, essas pessoas perderam a habilidade de valorizar a própria existência e de se questionar sobre as razões do sofrimento antecipado ou da dependência de aprovação virtual.

Este cenário se estende também para as novas gerações. Cury aponta que crianças e adolescentes estão inseridos em um contexto de superproteção familiar, o que os impede de desenvolver resiliência diante de frustrações diárias. Ele define o momento atual como a era de uma geração que entra em caos emocional diante de qualquer contrariedade, resultando em uma sociedade ansiosa e permanentemente insatisfeita.

Reflexos na saúde, família e ambiente corporativo

As consequências desse ritmo acelerado, segundo os dados apresentados pelo palestrante, manifestam-se em diferentes esferas da sociedade. Na área da saúde, Cury estima que uma em cada duas pessoas desenvolverá algum transtorno psiquiátrico ao longo da vida, totalizando mais de 4 bilhões de indivíduos globalmente.

Os reflexos físicos também são diretos:

  • Dores de cabeça e musculares;
  • Queda de cabelo;
  • Distúrbios gastrointestinais em períodos de tensão;
  • Doenças crônicas e autoimunes estimuladas pelo estresse contínuo.

No âmbito institucional e familiar, o diagnóstico também indica desgaste. O psiquiatra destacou que as famílias enfrentam um adoecimento coletivo devido à fragmentação das relações e à incapacidade de lidar com perdas. Já no ambiente corporativo, Cury apontou que entre 30% e 33% dos profissionais sofrem com a Síndrome de Burnout, caracterizando o que chamou de “empresas doentes”.

Pré-candidato à presidência

Durante a entrevista, Augusto Cury relembrou sua movimentação como pré-candidato à presidência da República neste ano de 2026, explicando que o objetivo era atuar como uma “voz da pacificação”, com foco nas demandas reais da população. Contudo, o especialista classificou o ambiente político atual como altamente tóxico e focado na destruição mútua em detrimento de projetos de nação.

Para o psiquiatra, a pacificação social depende diretamente de olhar para as vulnerabilidades sociais que costumam ser negligenciadas. Entre as prioridades listadas por ele estão:

  • Neurodivergentes: O acolhimento aos 32 milhões de neurodivergentes no Brasil, incluindo os 2,4 milhões de autistas (TEA), e o suporte aos seus familiares.
  • Educação: A valorização salarial, o treinamento e o resgate da autoridade dos professores em sala de aula, criticando a formação de filhos em regime de “estufa” (superproteção) pelos pais.
  • Setores Produtivos: As dificuldades financeiras e margens estreitas enfrentadas por agricultores e comerciantes.
  • Direitos das Mulheres: A disparidade salarial média de 21% entre homens e mulheres na mesma função, a pressão estética que afeta a autoimagem feminina e os índices alarmantes de feminicídio.

‘Não existe inteligência emocional; a emoção é burra’

No evento voltado para a formação de líderes de alta performance sob pressão no The Latvian, Cury propôs uma distinção teórica importante. Ele contesta o conceito tradicional de inteligência emocional adotado por grandes universidades globais.

“Vou falar sobre gestão da emoção, que é diferente da inteligência emocional. E aqui corrige o alvo que no mundo todo se acredita: não há inteligência emocional. A emoção é burra, desinteligente e inconsciente, ela não consegue ser inteligente, ela não consegue ser autogerida, só há gestão da emoção”, explicou.

Para o autor, cabe ao “eu” consciente atuar como o líder e pacificador da própria mente. Ele argumenta que o autoconhecimento deve preceder as relações interpessoais. Ao abordar o ciúme entre os jovens, por exemplo, o psiquiatra definiu o sentimento como “saudade de mim”, refletindo o conflito de indivíduos que se autoabandonaram e tentam exercer controle sobre o outro da mesma forma que controlam vídeos e algoritmos nas redes sociais.

‘A mente mente

Encerrando as reflexões sobre o comportamento humano, Cury destacou que a própria mente é a principal fonte de sabotagem do indivíduo. A autotraição ocorre de forma diária quando as preocupações com o futuro anulam a capacidade de vivenciar o presente de forma leve.

O psiquiatra, que reforçou possuir uma forte ligação afetiva com a Bahia e com o interior do Nordeste, concluiu pontuando que o excesso de críticas nas relações humanas destrói a convivência social e política, priorizando vaidades e ideologias em vez do bem-estar coletivo.

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Foto: Viver Vitória

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