Evolução das técnicas cirúrgicas e anestésicas e protocolos de recuperação permitem procedimentos mais ágeis, desde que critérios de segurança sejam rigorosamente respeitados
A evolução da medicina tem transformado a dinâmica das internações cirúrgicas. Procedimentos que há alguns anos exigiam permanência hospitalar prolongada hoje podem, em casos selecionados, ser realizados com alta no mesmo dia. Técnicas menos invasivas, anestésicos de ação mais rápida e protocolos estruturados de recuperação estão entre os fatores que impulsionam esse modelo, adotado por hospitais-dia como o Hospital Agnus Dei, em Salvador.
Segundo o diretor médico da unidade, Dr. Márcio Peixoto, a mudança é resultado de uma combinação de avanços tecnológicos, científicos e assistenciais.
“Temos hoje procedimentos minimamente invasivos, anestésicos de metabolização mais rápida e protocolos de recuperação acelerada, que tornam a recuperação muito mais previsível e confortável já nas primeiras horas após o procedimento. É um cenário bem diferente do que existia há uma década, quando a internação prolongada era quase automática para procedimentos que hoje sabemos não exigir isso”
Dr. Márcio Peixoto
Nesse processo, a anestesia tem papel fundamental. O médico anestesista Dr. Thiago Carvalho destaca que técnicas modernas permitem não apenas uma recuperação mais rápida do nível de consciência, mas também melhor controle da dor no período pós-operatório.

“As técnicas anestésicas evoluíram muito. Hoje contamos com medicamentos com menores efeitos colateriais e podemos associar diferentes estratégias, como por exemplo, bloqueios periféricos, que ajudam a prolongar a analgesia. Dessa forma, conseguimos proporcionar uma recuperação mais confortável e, dependendo do procedimento, favorecer inclusive o início mais precoce da fisioterapia e da mobilização”
Dr. Thiago Carvalho
Mas a possibilidade de deixar o hospital poucas horas após uma cirurgia não significa flexibilização dos cuidados. A indicação depende da avaliação individual de cada paciente, considerando condições clínicas, risco anestésico, tipo e duração da cirurgia, possibilidade de sangramento e necessidade de acompanhamento prolongado.

“A decisão nunca é sobre o procedimento isoladamente, é sobre o paciente diante daquele procedimento. Avaliamos o risco anestésico e clínico, a presença de comorbidades, a magnitude e a previsibilidade da cirurgia e, depois do procedimento, critérios objetivos para a alta”
Dr. Márcio Peixoto
No período pós-anestésico, são observados aspectos como recuperação do nível de consciência, estabilidade dos sinais vitais, controle da dor, ausência de náuseas e vômitos persistentes e capacidade de interação e mobilização compatível com o procedimento realizado.
“O retorno adequado do nível de consciência é prioritário, assim como a ausência de náuseas e vômitos. Também avaliamos se o paciente consegue se alimentar, interagir e compreender o que está acontecendo ao seu redor. Utilizamos escalas e critérios no dia a dia justamente para aumentar a segurança e garantir que ele deixe a unidade em boas condições”
Dr. Thiago Carvalho

Outro ponto indispensável é o suporte após a saída do hospital. O paciente precisa receber orientações sobre medicamentos, cuidados e sinais de alerta, além de contar com acompanhante e acesso a assistência médica caso surja alguma intercorrência.
“O paciente precisa ter acompanhante, fácil acesso a atendimento e orientação clara sobre sinais de alerta. Sem essa rede de segurança fora do hospital, a alta no mesmo dia não deve ser indicada, mesmo que todos os critérios cirúrgicos estejam adequados”
Dr. Thiago Carvalho
Entre os benefícios da curta permanência estão a recuperação no ambiente familiar, menor exposição ao ambiente hospitalar e possibilidade de retomada mais rápida da rotina, respeitando as limitações de cada cirurgia. Para o hospital, o modelo também favorece o uso racional dos leitos e direciona a internação prolongada aos pacientes que realmente necessitam desse recurso.

“Isso não significa reduzir cuidado, e sim redistribuir o esforço assistencial para onde ele faz mais diferença. A segurança se mantém porque o modelo é sustentado por critérios rígidos e protocolados de seleção e de alta. Quando indicação e segurança vêm antes da conveniência, o ganho de eficiência é consequência, não o objetivo”
Márcio Peixoto
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