Neurocientista e psicanalista Ana Chaves explica riscos do uso da ferramenta para fins terapêuticos
O avanço da inteligência artificial (IA) tem transformado diversos setores, inclusive o da saúde mental. Com a popularização de assistentes virtuais e aplicativos que simulam conversas terapêuticas, cresce também a preocupação de especialistas quanto aos riscos do uso dessas ferramentas como substitutas de profissionais da psicologia e da psicanálise.
De acordo com a neurocientista e psicanalista Ana Chaves, a utilização indiscriminada de chatbots e plataformas baseadas em IA para fins terapêuticos pode trazer consequências sérias, especialmente em casos que exigem acolhimento humano e compreensão emocional.
“A inteligência artificial pode ser uma ferramenta complementar, mas jamais deve substituir o contato humano. Emoções, traumas e subjetividades não podem ser reduzidos a algoritmos. O perigo está em acreditar que uma máquina é capaz de oferecer o mesmo nível de escuta, empatia e análise que um profissional preparado”, alerta a especialista.

Um relatório recente da World Health Organization (WHO, 2024) destacou que, embora a IA possa auxiliar na triagem de sintomas e no acompanhamento de pacientes, há riscos éticos e clínicos associados ao uso indevido desses sistemas. O documento cita a ausência de empatia, a possibilidade de vieses algorítmicos e a falta de supervisão profissional como fatores críticos que podem comprometer o bem-estar dos usuários.
Pesquisas conduzidas pela Stanford University e pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) também apontam que interações prolongadas com assistentes virtuais podem gerar uma falsa sensação de vínculo emocional, levando indivíduos vulneráveis a substituir relacionamentos reais por conexões artificiais. “O cérebro humano busca acolhimento e validação emocional. Quando isso é oferecido por uma máquina, o risco é a criação de uma ilusão de cuidado, sem a sustentação psíquica que um terapeuta humano proporciona”, explica Ana.

A neurocientista defende que a IA pode ser uma aliada importante se utilizada com responsabilidade.
“A tecnologia deve servir como apoio, seja no agendamento de consultas, no monitoramento de humor ou no incentivo à busca por ajuda profissional. Mas o processo terapêutico em si requer escuta, presença e sensibilidade. E isso, até o momento, nenhuma máquina é capaz de reproduzir”, reforça.
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